quinta-feira, abril 22, 2010

Brasiliense, não renegue o candango (por Marcelo Torres)

Essa aqui do Marcelo Torres ficou muito boa, merece a nossa atenção.

Marcelo Torres*

O Distrito Federal possui hoje uma população estimada em 2.526.000 habitantes, sendo 1.290.000 imigrantes e 1.236.000 nascidos aqui (são estimativas do IBGE, via Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD, realizada em 2008).

Esses 52% de forasteiros se dizem e se consideram candangos, uma forma carihosa. Quando voltam aos seus estados, são chamados de candangos. "Fulano, você já virou candango mesmo".
As pessoas aqui nascidas (não todas, mas uma boa parte, talvez a maioria) adotaram o gentílico de brasiliense e passaram a negar com surpreendente veemência o adjetivo candango, às vezes parecendo que este nome as diminuem, depreciam, ofendem.

Eu não sou candango”, reage o brasiliense. “Candangos foram os operários que trabalharam na construção da cidade”. E emenda: “Quem nasce em Brasília é brasiliense. Eu nasci em Brasília, então sou brasiliense”.

Os filhos do DF (repito que não são todos) pegam um dicionário e esfregam na sua cara para mostrar o significado da palavra candango: “Indivíduo ruim, ordinário”. Imagina se eles vão querer ser associados aos “miseráveis, ruins e ordinários”!? Nunca!

Se você cair na besteira de chamar de “candanga” uma mulher daqui, você vai ver com quantos paus e pedras se faz e se fez uma Ponte JK. Chamar de “candanga” uma jovem do DF, mesmo carinhosamente, parece que é reduzi-la ao nada.

Lembremos: os termos gaúcho (RS), capixaba (ES), potiguar (RN), carioca (RJ-capital), barriga-verde (SC), soteropolitano (Salvador), canela-verde (Vila Velha-ES), grapiúna (Itabuna) estão para suas cidades e estados assim como candango está para Brasília.

Você chama uma catarinense de barriga-verde, catarina e catarinete e ela não se zanga. Chama de soteropolitana a menina de Salvador e ela até se sente feliz. Chama uma espírito-santense (nascida no Espirito Santo) de capixaba e ela gosta.

Nenhum filho de Salvador vai dizer “Eu não sou soteropolitano, sou salvadorense” (que, pela etimologia, seria o correto). Entre os nascidos no Rio Grande do Sul, ninguém dirá “Eu não sou gaúcho, sou riograndense-do-sul” (que seria o adjetivo mais “lógico”).

Em Floripa, os filhos da cidade adotaram com muito orgulho adjetivos como barriga-verde e manezinho da ilha, que podem parecer jocosos, mas são termos amáveis. Lá não se ouve ninguém dizer “Eu não sou barriga-verde (que eram pobres pescadores), eu sou catarinense”.

No Distrito Federal, porém, a moça nascida em Sobradinho não quer ser candanga. O cabra nasce na Candangolândia e renega o adjetivo de candango, como se isso fosse a pior coisa do mundo.

Alguns desses filhos do DF falam um “carioquês” forçado, mesmo sem serem cariocas. Aí você ironicamente cumprimenta-os com um “E aí, carioca”... E ele não se zanga, não rejeita, talvez pense que é elogio.

Olha só como são as coisas: você chama ironicamente um brasiliense daquilo que ele não é (carioca), mas ele quer ser, e ele não se ofende; você o chama daquilo que ele é (candango), mas ele não quer ser, então ele rejeita prontamente.

Repito: não são todos, mas é uma grande parcela, identificada nas Asas Sul e Norte, nos Lago Sul e Norte, Sudoeste, Park Way, Águas Claras.... São encontrados em bares, restaurantes, casas noturnas, baladas, faculdades, academias, clubes, churrascos, barcos, lanchas...

Antes de conhecer Brasília, antes de ter a dor e da delícia de ver o que ela é, eu via o adjetivo “candango” como típico das coisas do universo do Distrito Federal. Um adjetivo natural, poético, típico, histórico e singelo. Um gentílico que tinha tudo a ver com a história.

Aliás, praticamente todos os demais brasileiros acham que o natural do DF é chamado de candango, não vendo nisso nenhum demérito, desonra ou coisa diminutiva. Ao contrário, os brasileiros falam com um jeito super carinhoso e afável.

Aliás, um dos desejos de JK era que os filhos de Brasília se auto-intitulassem candangos, não só pela beleza e poesia da palavra, mas pela carga histórica e como homenagem. “Devemos a eles esta cidade”, dizia um grato Juscelino.

A rejeição ao termo candango é tão grande que o carnaval fora de época teve que mudar de Micarecandanga para Micarê, excluindo-se a candanga, essa coisa ruim, pobre, ordinária, indesejada.

É óbvio que nenhum brasiliense admite que isso é preconceito. Eles alegam que é uma questão de separar as coisas - “uma coisa é quem construiu, outra coisa é quem nasceu” -, o que só reforça a rejeição.

Brasília é “a corte”, a capital do país, onde todo mundo quer ser importante, todo mundo que ser ou parecer cacique, ninguém quer ser nem parecer índio (talvez para não ser queimado por outros jovens iguaizinhos aos que queimaram Galdino)
Não nos esqueçam o que disseram os assassinos do índio: "Nós não sabíamos que era um índio, pensávamos que era um mendigo". Ora, então quer dizer que se pode matar mendigo (um canndango)?
Para as classes A, B e C do DF, os primeiros 60 mil que pisaram esse solo, aqui vieram, ergueram uma cidade e, num passe de mágica, sumiram no dia 21 de abril. Foram mortos imaginariamente e aqui não deixaram nada - história, filhos, cultura, sotaque, costumes, nada...

[E tem outra coisa: pela etimologia, o termo brasiliense nem era nem para ser adjetivo de Brasília. Brasiliense era adjetivo pátrio de Brasil, referia-se às coisas do Brasil, tanto que um jornal fundado em 1808 tem até hoje o nome Correio Braziliense (brasileiros eram os comerciantes de pau-brasil - foi a Constituição de 1824 que instituiu oficialmente o gentílico brasileiro.]

Aqui, a rejeição ao candango é tão evidente que se criou até a classe social dos pioneiros. Ué, e os candangos não são pioneiros também? E os “pioneiros” não são candangos (trabalhadores)? Então, temos hoje, aqui, uma Casa dos Candangos e uma Casa dos Pioneiros.

Ao contrário das pessoas que nascem em Brasília, os cidadãos nascidos no RS, RN, ES e nas cidades de Floripa, Rio, Vila Velha e Salvador não sentem vergonha do gentílico “diferente” que possuem. Gentílicos esses provenientes de índios, pobres, pescadores, operários, peões de estância etc.
A palavra capixaba, por exemplo, significa, entre outras coisas, “roça, sítio, cangaceiro”. Mas o espírito-santense, ou seja, o cidadão nascido no Espírito Santo, adotou o gentílico capixaba, e tem muito orgulho disso. Eles poderiam adotar o espírito-santense, caso tivessem algum preconceito.

No Rio Grande do Sul é a mesma coisa, o riograndense-do-sul adora ser gaúcho, que é sinônimo de peão de estância, entre outras coisas. E olha que o termo gaúcho é “deturpado” do gauche (sem acento), típico do espanhol da região de fronteira com Uruguai e Argentina. Gaúcho está para candango da mesma forma que brasiliense está para riograndense-do-sul.

Então, a questão é esta: embora não admitam de jeito nenhum, para não parecer coisa feia, alguns brasilienses não querem ser candangos porque não querem ser pobres, miseráveis, peões. É por isso que eles se sentem diminuídos, ofendidos e ultrajados quando alguém lhes chama de candango.

Ora, meus caros e minhas caras, sejam brasilienses, mas não reneguem suas orígens, não reneguem o candango. É brasiliense, sim; mas candango também. Por que não?

Os candangos não podem ser motivo de vergonha nem desonra, muito pelo contrário, eles foram os heróis da epopéica construção desta cidade e não há porque ter vergonha deles, devemos é homenageá-los.
Renegar o candango da forma como alguns brasilienses o renegam causa uma dor no peito desse baiano aqui radicado, que já é candango de coração, inclusive tem um filho de cinco anos aqui nascido, e que por ele será chamado amavelmente, pelo resto da vida, como "meu candanguinho", um bendito fruto do amor que sente por essa cidade.

Marcelo Torres: http://marcelotorres.zip.net e marcelocronista@gmail.com .