Marcelo Torres*
O Distrito Federal possui hoje uma população estimada em 2.526.000 habitantes, sendo 1.290.000 imigrantes e 1.236.000 nascidos aqui (são estimativas do IBGE, via Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD, realizada em 2008).
“Eu não sou candango”, reage o brasiliense. “Candangos foram os operários que trabalharam na construção da cidade”. E emenda: “Quem nasce em Brasília é brasiliense. Eu nasci em Brasília, então sou brasiliense”.
Os filhos do DF (repito que não são todos) pegam um dicionário e esfregam na sua cara para mostrar o significado da palavra candango: “Indivíduo ruim, ordinário”. Imagina se eles vão querer ser associados aos “miseráveis, ruins e ordinários”!? Nunca!
Se você cair na besteira de chamar de “candanga” uma mulher daqui, você vai ver com quantos paus e pedras se faz e se fez uma Ponte JK. Chamar de “candanga” uma jovem do DF, mesmo carinhosamente, parece que é reduzi-la ao nada.
Lembremos: os termos gaúcho (RS), capixaba (ES), potiguar (RN), carioca (RJ-capital), barriga-verde (SC), soteropolitano (Salvador), canela-verde (Vila Velha-ES), grapiúna (Itabuna) estão para suas cidades e estados assim como candango está para Brasília.
Você chama uma catarinense de barriga-verde, catarina e catarinete e ela não se zanga. Chama de soteropolitana a menina de Salvador e ela até se sente feliz. Chama uma espírito-santense (nascida no Espirito Santo) de capixaba e ela gosta.
Nenhum filho de Salvador vai dizer “Eu não sou soteropolitano, sou salvadorense” (que, pela etimologia, seria o correto). Entre os nascidos no Rio Grande do Sul, ninguém dirá “Eu não sou gaúcho, sou riograndense-do-sul” (que seria o adjetivo mais “lógico”).
Em Floripa, os filhos da cidade adotaram com muito orgulho adjetivos como barriga-verde e manezinho da ilha, que podem parecer jocosos, mas são termos amáveis. Lá não se ouve ninguém dizer “Eu não sou barriga-verde (que eram pobres pescadores), eu sou catarinense”.
No Distrito Federal, porém, a moça nascida em Sobradinho não quer ser candanga. O cabra nasce na Candangolândia e renega o adjetivo de candango, como se isso fosse a pior coisa do mundo.
Alguns desses filhos do DF falam um “carioquês” forçado, mesmo sem serem cariocas. Aí você ironicamente cumprimenta-os com um “E aí, carioca”... E ele não se zanga, não rejeita, talvez pense que é elogio.
Olha só como são as coisas: você chama ironicamente um brasiliense daquilo que ele não é (carioca), mas ele quer ser, e ele não se ofende; você o chama daquilo que ele é (candango), mas ele não quer ser, então ele rejeita prontamente.
Repito: não são todos, mas é uma grande parcela, identificada nas Asas Sul e Norte, nos Lago Sul e Norte, Sudoeste, Park Way, Águas Claras.... São encontrados em bares, restaurantes, casas noturnas, baladas, faculdades, academias, clubes, churrascos, barcos, lanchas...
Antes de conhecer Brasília, antes de ter a dor e da delícia de ver o que ela é, eu via o adjetivo “candango” como típico das coisas do universo do Distrito Federal. Um adjetivo natural, poético, típico, histórico e singelo. Um gentílico que tinha tudo a ver com a história.
Aliás, praticamente todos os demais brasileiros acham que o natural do DF é chamado de candango, não vendo nisso nenhum demérito, desonra ou coisa diminutiva. Ao contrário, os brasileiros falam com um jeito super carinhoso e afável.
Aliás, um dos desejos de JK era que os filhos de Brasília se auto-intitulassem candangos, não só pela beleza e poesia da palavra, mas pela carga histórica e como homenagem. “Devemos a eles esta cidade”, dizia um grato Juscelino.
A rejeição ao termo candango é tão grande que o carnaval fora de época teve que mudar de Micarecandanga para Micarê, excluindo-se a candanga, essa coisa ruim, pobre, ordinária, indesejada.
É óbvio que nenhum brasiliense admite que isso é preconceito. Eles alegam que é uma questão de separar as coisas - “uma coisa é quem construiu, outra coisa é quem nasceu” -, o que só reforça a rejeição.
[E tem outra coisa: pela etimologia, o termo brasiliense nem era nem para ser adjetivo de Brasília. Brasiliense era adjetivo pátrio de Brasil, referia-se às coisas do Brasil, tanto que um jornal fundado em 1808 tem até hoje o nome Correio Braziliense (brasileiros eram os comerciantes de pau-brasil - foi a Constituição de 1824 que instituiu oficialmente o gentílico brasileiro.]
Aqui, a rejeição ao candango é tão evidente que se criou até a classe social dos pioneiros. Ué, e os candangos não são pioneiros também? E os “pioneiros” não são candangos (trabalhadores)? Então, temos hoje, aqui, uma Casa dos Candangos e uma Casa dos Pioneiros.
No Rio Grande do Sul é a mesma coisa, o riograndense-do-sul adora ser gaúcho, que é sinônimo de peão de estância, entre outras coisas. E olha que o termo gaúcho é “deturpado” do gauche (sem acento), típico do espanhol da região de fronteira com Uruguai e Argentina. Gaúcho está para candango da mesma forma que brasiliense está para riograndense-do-sul.
Então, a questão é esta: embora não admitam de jeito nenhum, para não parecer coisa feia, alguns brasilienses não querem ser candangos porque não querem ser pobres, miseráveis, peões. É por isso que eles se sentem diminuídos, ofendidos e ultrajados quando alguém lhes chama de candango.
Ora, meus caros e minhas caras, sejam brasilienses, mas não reneguem suas orígens, não reneguem o candango. É brasiliense, sim; mas candango também. Por que não?
Marcelo Torres: http://marcelotorres.zip.net e marcelocronista@gmail.com .